UM CÃO CHAMADO ALFREDO
O cão Alfredo farejava
as palavras que saíam da boca,
os livros na livraria,
as manchetes dos jornais,
a música na voz do rádio;
que do focinho pelado
do cão chamado Alfredo
nada escapava impune.
O cão Alfredo mandava seguir
os passos do estudante
que caminhava sem destino
no itinerário dos poetas
que escreviam para ninguém,
enquanto as mães aflitas
ainda procuravam encontrar
notícias dos meninos;
que o faro de Alfredo
era uma confluência de sentidos.
O cão Alfredo dilacerava
os sonhos do viajante
que se perdeu no tempo,
e corria atrás do carteiro
que entregava correspondências
sem nome do remetente
e não deixava em paz as pombas
que arrulhavam nos jardins
esquecidos da primavera;
que as garras de Alfredo
eram como punhais assassinos.
O cão Alfredo espreitava
do outro lado da rua
a aflição dos vencidos,
que andavam cambaleantes
com os cadáveres putrefatos
à espera da queda;
que vivia dentro de Alfredo
uma hiena faminta.
O cão Alfredo ameaçava
os que guardavam no peito
a lembrança dos mortos,
desfraldavam bandeiras
sobre os corpos esvaídos
carregados em passeatas
numa só voz pelas ruas:
— Assassinos, assassinos!
— Devolvam-nos nossos sonhos…
— Devolvam-nos a esperança…;
que Alfredo não admitia
ser infiel a seu dono.
O cão Alfredo não dormia
ao menos por um segundo
na guarda de sua pasta,
que semeava injustiça
sobre os que tinham as vidas
de angústia
e sofrimento
sem direito ao menos à Lei
de Proteção aos Animais;
que Alfredo era implacável
na perseguição à sua presa.
O cão Alfredo era destro
como uma ave de rapina
sobre a terra dizimada
com os animais rastejantes
escondendo-se sob o pó
do crânio dos aniquilados
pela consciência despertada
que lhes arrastava pela vida;
que Alfredo era desprovido
de qualquer compaixão ao próximo.
O cão Alfredo não latia
antes de exercer o domínio
sobre a criatura dominada,
as entranhas expostas,
as carnes esfaceladas,
os testículos arrancados,
só o coração batendo;
que Alfredo se considerava
um impulsivo romântico.
O cão Alfredo não se cansava
de mostrar os caninos
aos desafetos do regime,
e cada qual se protegia
com sal grosso
e incenso,
veneno
e salvo-conduto,
com reza para fechar o corpo
e alho para espantar o mal,
quando Alfredo praticava
o seu esporte predileto:
— Cassar sediciosos…
— Cassar sonhadores…
— Cassar poetas panfletários…
O cão Alfredo rosnava
uma ira assassina
sobre as cabeças a prêmio
e fazia as noites de assombro
atemorizar os que escrevem ao amanhã
versos que nunca serão lidos…
O cão chamado Alfredo
sabia de cor os nossos nomes
e quase não podíamos dizer
— Buzaid…
— Buzaid…
— Buzaid…
miserável cão do demo.
Rio de Janeiro, 18.4.74